Quinta Empresaria: Laura Paulati

De filha da loja à líder do futuro: a trajetória de Laura Paulate e o legado da Agriserra em Sinop
Existem empresas que se constroem com capital e estratégia. Outras, com suor, união familiar e fé. A Agriserra, tradicional empresa de Sinop, é uma dessas histórias que emocionam — e que agora ganha um novo capítulo com a força e sensibilidade de Laura Paulate, filha dos fundadores Paulo e Meire, e representante da nova geração de empreendedores que honram o passado e planejam o futuro com visão.

Tudo começou em 1992, quando Paulo, vindo do interior do Paraná, trocou a vida difícil de boia-fria por uma chance em Sinop. Jovem, corajoso e determinado, começou como funcionário de uma oficina, a Agro Peças, do senhor Hélio. Depois de anos de dedicação, quando a empresa fechou, recebeu a oficina como parte do acerto trabalhista. Nascia ali a Agriserra — uma aposta que exigia mais coragem do que recursos.

Sem capital, mas com muita força de vontade, Paulo e Meire arregaçaram as mangas. Ele era o mecânico, o patrão, o funcionário. Ela, a administradora, atendente, mãe e parceira. A cidade ainda era precária: ruas de terra, energia elétrica instável e mercado limitado. A filha mais velha, Daiane, já havia nascido, e mesmo com criança pequena, o casal enfrentava jornadas exaustivas. “Trabalhavam das 4h da manhã às 9h da noite”, lembra Laura com orgulho.

A Agriserra cresceu enfrentando crises e transformações. A mais marcante foi a crise madeireira no início dos anos 2000, que abalou a economia local e quase paralisou a empresa. Como a principal atividade era a venda de motosserras e equipamentos para o setor, a queda nas madeireiras afetou diretamente o negócio. Mas foi nessa fase desafiadora que surgiu um divisor de águas: o convite para se tornarem representantes da Stihl, marca mundialmente reconhecida por sua inovação e qualidade em equipamentos.

A entrada da Stihl no portfólio da Agriserra não só reposicionou a marca, como também exigiu uma transformação. A loja, antes localizada na BR-163, teve que ser realocada. Sem condições para bancar aluguéis altos, a família encontrou um novo ponto na Avenida dos Pinheiros, onde está até hoje. Foi a virada: com a marca forte, o novo espaço e a resiliência construída ao longo dos anos, a Agriserra cresceu e se consolidou como uma das referências da região.

E é justamente nesse novo momento que surge Laura. Literalmente nascida dentro da empresa — antes mesmo de ir para casa após o nascimento, passou pela loja — ela cresceu entre motores, balcão e planilhas. A infância foi vivida no ambiente da empresa, e mesmo após se formar em estética e cosmética, seguiu outro caminho profissional. Trabalhou cinco anos na área, mas um dia, diante da decisão da irmã de se afastar da gestão e com os pais já cansados da rotina pesada, veio o convite: “Você quer assumir?”

A resposta não foi imediata. Mas a reflexão veio do coração. “Tudo o que conquistei veio da Agriserra. Minha escola, minha faculdade, meu plano de saúde… eu não podia virar as costas para essa história.” Com apenas 22 anos, Laura aceitou o desafio. Entrou de vez na empresa que ajudou a formar sua identidade. Hoje, ao lado do irmão Paulo Henrique, conduz a transição do negócio com responsabilidade e paixão.

“Não somos apenas colaboradores, mas também não somos ainda os donos”, explica. Eles vivem o desafio da sucessão familiar, tão comum e delicado nas empresas brasileiras. Mas fazem isso com respeito aos pais, vontade de aprender e amor ao legado. “O que a gente está ganhando é conhecimento. E esse é o maior presente que eles podiam nos dar.”

Hoje, a Agriserra conta com dez colaboradores, incluindo Laura e o irmão. Atua na área de equipamentos para agricultura leve, extração de madeira e atendimento ao produtor rural. E mesmo diante de um cenário econômico mais difícil, mantém o foco no crescimento com responsabilidade. “Tínhamos planos de expansão, mas com as incertezas políticas e econômicas, decidimos pausar. Mas não vamos parar por aqui.”

A fala de Laura transparece maturidade, equilíbrio e, acima de tudo, gratidão. Ela compreende que empreender é mais do que administrar — é resistir. E o futuro que projeta é de inovação, sim, mas com os pés no chão e raízes profundas no que a família construiu. “Se meus pais, sem estudo, sem estrutura, construíram tudo isso, por que eu, com estudo e tantas oportunidades, não posso ir além?”

A história da Agriserra é, antes de tudo, uma história de amor: ao trabalho, à família, a Sinop. Uma empresa que sobreviveu às tempestades porque foi construída sobre valores sólidos. Uma nova geração que honra o nome, mas imprime seu próprio ritmo. E uma jovem mulher que decidiu não apenas aceitar um convite — mas transformá-lo em missão.

Share the Post:

Postagens relacionadas