De um sonho adiado a cinco lojas: a história inspiradora de Priscila Sytriski no comando do Boticário em Sinop
Nem toda história de sucesso começa com um plano perfeito. Algumas começam com uma mala na mão, um sonho no peito e o coração cheio de coragem. Assim foi a chegada de Priscila Sytriski a Sinop, em 1976, ainda aos três anos de idade, vinda de Curitiba com os pais. Seu pai, Aridair, e seu avô, o médico Dr. Alberto, apostaram no improvável: investir em terras na então remota cidade do Nortão. Venderam tudo e se mudaram sem conhecer nada do local. O que parecia um tiro no escuro se tornou o início de uma grande jornada.
A infância da Priscila foi marcada por simplicidade e alegria. Sem água encanada ou energia elétrica, ela aprendeu a valorizar momentos em família, banhos de canequinha e brincadeiras ao ar livre. Foi em Sinop que ela cresceu, fez amigos, estudou, e começou a formar os valores que a tornariam uma empreendedora admirável.
Filha única, Priscila teve contato com o trabalho desde cedo. Ajudava o avô no hospital, o pai no setor imobiliário e a mãe, dona Marília, no comércio. Chegou a sonhar em ser médica, como o avô, mas ao terminar o ensino médio, recebeu uma dura notícia: ele estava com câncer. Diante da decisão entre estudar fora ou permanecer ao lado dele em seus últimos anos, escolheu ficar. Foi um gesto de amor que moldaria sua visão de família e responsabilidade. “Não me arrependo. Foi incrível estar com ele até o fim”, contou.
Formou-se em Matemática, deu aulas, mas o cenário da época — com muitas greves e baixos salários — a desmotivou. Já no dia a dia da loja do Boticário, onde sua mãe havia trazido a franquia em 1985, Priscila se encontrava. A fragrância Água Fresca, paixão da mãe, era o elo entre Curitiba e Sinop. A cada viagem à capital paranaense, a família trazia frascos suficientes para o ano. Até que um dia, no aeroporto, viram um estande de franquias e decidiram apostar na marca que amavam.
Mesmo envolvida no Boticário desde os 14 anos, Priscila experimentou outros negócios: fundou uma academia, depois um hotel, o Vezon Palace. Mas com a chegada da primeira filha, Letícia, resolveu mudar. Fechou os empreendimentos e voltou ao Boticário, agora com um novo olhar. “Fui caixa, consultora, estoquista… fiz de tudo na loja. Ali eu aprendi de verdade”, disse.
O processo de sucessão da mãe no comando da franquia foi rigoroso. Foram quatro anos de treinamentos intensos com a indústria até ser aprovada como operadora oficial. “Herdar é uma coisa, suceder é outra. Suceder exige preparo, estudo, envolvimento. E isso o Boticário oferece com excelência.”
Hoje, Priscila está à frente de cinco lojas físicas e um centro de apoio ao revendedor. O Boticário, para ela, não é apenas uma marca de cosméticos. É uma ferramenta de transformação. “A marca me transformou. Me fez crescer como empresária e como pessoa. Me ensinou a cuidar de gente, a entender gestão, a ter empatia e liderança.”
E as histórias que marcaram sua trajetória não param por aí. Uma, em especial, ficou gravada em seu coração: uma revendedora que começou a trabalhar para complementar a renda e pagar a prestação da casa. Ela bateu metas, ganhou um incentivo financeiro e com esse valor conseguiu quitar o imóvel. “Ela me disse que nunca imaginou que um ‘bico’ fosse mudar a vida dela dessa forma. E isso é o Boticário. É vender sonhos em potinhos, transformar vidas de verdade.”
Casada há 25 anos com Clodoaldo Piacentini, Priscila é mãe da Letícia, de 20 anos, e da Larissa, de 15. Para ela, conciliar a vida de mãe, esposa e empresária nunca foi fácil. “Hoje tenho seis empresas sob minha responsabilidade. Meu pai também repassou parte dos negócios pra mim e para o Clodoaldo. A rotina é intensa. Mas com organização e apoio, a gente consegue equilibrar. Meu marido é meu suporte, meu parceiro de vida.”
Priscila sabe que muitas mulheres empreendedoras enfrentam esse mesmo desafio: cuidar da casa, dos filhos e ainda comandar um negócio. Por isso, deixa um recado importante: “Você não precisa dar conta de tudo sozinha. Delegue o que puder, priorize o essencial e cuide de você. Se não, a saúde cobra. E mais do que tudo: execute! Não deixe seus planos no papel.”
Hoje, Sinop abriga não só as lojas do Boticário, mas também mais de três mil revendedoras ligadas ao negócio de Priscila. Gente que encontrou ali uma forma de gerar renda, ter independência e sonhar alto. “Sinop continua sendo uma terra de oportunidades. Meu conselho a quem chega agora é: foque, planeje, aprenda e execute. Vai ser difícil, mas é possível. Sempre há uma forma de recomeçar.”
Ao final da entrevista no Jornal Integração, Priscila fez questão de mandar um abraço ao pai, Aridair, que completou 80 anos. Um pioneiro que, há décadas, acreditou em uma cidade que ainda era só mato e poeira. “Se hoje eu sou quem sou, devo muito à base que recebi. Família, valores, coragem e fé.”
A história de Priscila Sytriski não é só sobre empreendedorismo. É sobre gratidão, escolhas conscientes, renúncias com propósito e um amor profundo pela cidade que a acolheu. Uma história que inspira não apenas quem sonha em empreender, mas todos que acreditam que com foco, empatia e coragem, é possível transformar a vida — a sua e a de muitos outros ao redor.

